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O escritorNão articulava tão bem as palavras como sonhou um dia, ainda assim era digno da admiração dos amigos e da família. Tinha total consciência de que qualquer coisa escrita pós Kafka seria literatura de segunda mão; porcaria reciclada pra um público não muito exigente, consumidores de alimentos enlatados, fast food, porcaria industrial.Cônscio de sua limitação e do quão inútil para a humanidade era sua labuta,  labutava, um pouco pela pouca fama que seu nome carregava, e isso lhe aprazia, e um pouco para aliviar a consciência de ter jogado a vida fora atrás de um sonho, uma fantasia, como seus personagens.Um dia viu um boi morto na estrada a caminho de casa e pensou como seria bom ser aquele boi, morto. Lembrou de um conto de Manuel Bandeira e sorriu.Não tinha gosto pela vida; só pelas idéias. A idéia de um corpo feminino nú, a idéia do canto do bem-te-vi na janela da casa que morava na infância.A vida fora um desperdício de papel e tinta.Os odores, os prazeres, a ambição, o primeiro prêmio. Nada disso caberia em todas as palavras já escritas. A experiência ia além da ficção.Tudo o que fizera até então fora um embuste. Era um embusteiro, um traidor no fim das contas? Deveria parar de escrever? Nada disso. Além de um embusteiro, era um covarde. 

O escritor

Não articulava tão bem as palavras como sonhou um dia, ainda assim era digno da admiração dos amigos e da família. Tinha total consciência de que qualquer coisa escrita pós Kafka seria literatura de segunda mão; porcaria reciclada pra um público não muito exigente, consumidores de alimentos enlatados, fast food, porcaria industrial.
Cônscio de sua limitação e do quão inútil para a humanidade era sua labuta,  labutava, um pouco pela pouca fama que seu nome carregava, e isso lhe aprazia, e um pouco para aliviar a consciência de ter jogado a vida fora atrás de um sonho, uma fantasia, como seus personagens.
Um dia viu um boi morto na estrada a caminho de casa e pensou como seria bom ser aquele boi, morto. Lembrou de um conto de Manuel Bandeira e sorriu.
Não tinha gosto pela vida; só pelas idéias. A idéia de um corpo feminino nú, a idéia do canto do bem-te-vi na janela da casa que morava na infância.
A vida fora um desperdício de papel e tinta.
Os odores, os prazeres, a ambição, o primeiro prêmio. Nada disso caberia em todas as palavras já escritas. A experiência ia além da ficção.
Tudo o que fizera até então fora um embuste. Era um embusteiro, um traidor no fim das contas? Deveria parar de escrever?
Nada disso. Além de um embusteiro, era um covarde. 

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